A Argentina e sua empresa

A Argentina e sua empresa                                                                  
Por: Prof. Oceano Zacharias                                                                  

O que arrastou esse país à insolvência?

Um país vai ao default por uma conjunção de fatores, e não por um motivo isolado. É o que ocorre também com uma Empresa: ela vai “ladeira abaixo” movida sempre por várias causas, várias doenças. E diagnosticar estas causas e corrigi-las a tempo é atribuição das técnicas de Gestão Empresarial.
Propomos a você nos acompanhar nesta dupla análise: o que de fato aconteceu na Argentina?

Como um país com classe média dominante, culta, politizada e com elevado PIB pôde ficar nessa situação? Que doenças tem a Argentina? E se fosse na sua Empresa? Sua firma tem algumas destas doenças? Se você perceber semelhanças, fique alerta! – não é mera coincidência.

Corporativismo

O culto ao corporativismo na Argentina proporcionou um mal sem tamanho à sociedade. Funcionários tornaram-se por décadas extremamente improdutivos, tanto nas empresas particulares como nas estatais, em ambas sob o guarda-chuva protecionista dos sindicatos. Por outro lado, o corporativismo dos empresários, numa clara demonstração de descaso a investimentos em tecnologia e treinamento, que só cresciam quando realizavam negócios tendenciosos com o governo – mais ganhavam quanto mais o país perdia. A cultura do corporativismo na Argentina arrastou-a para a improdutividade, forjando empresas sucateadas técnica e funcionalmente.

O corporativismo nas empresas é denotado pela ausência de entendimento dos funcionários que não se preocupam com a eficiência dos seus trabalhos, acreditando que nada perderão com essa atitude – ledo engano -, ainda apoiados por sindicatos populistas; por outro lado, empresários que desprezam diretrizes, treinamentos e investimentos para a melhoria da produtividade – nas suas próprias empresas. A empresa que despreza ações voltadas à melhoria da produtividade, fatalmente pagará com seus custos elevados. E ganhar em produtividade requer da direção uma estratégia de médio e de longo prazos, voltada a medições corretas, acompanhamento permanente de resultados, forte treinamento e capacitação principalmente dos primeiros escalões.

Imediatismo

A Argentina há muito oferece produtos e, principalmente, serviços de baixa qualidade. A cultura do imediatismo impede que se trabalhe com foco no cliente, interessando apenas e tão somente o ganho momentâneo e instantâneo. Desta forma, o imediatismo do ganho, não garante a continuidade e perpetuação nos negócios, grandes ou pequenos.

Qual empresário, na verdadeira acepção da palavra, deseja construir uma empresa para que ela viva apenas alguns poucos anos? Como a resposta é nenhum, então a linha de raciocínio é muito simples: a visão deve ser de longo prazo; e, portanto, atender ao cliente – isto é, ao mercado – com os devidos cuidados e expectativas de longo prazo é, acima de tudo, uma questão de coerência e estratégica. A globalização faz com que a não Qualidade e a ausência de foco no cliente sejam o caminho fatal e indiscutível para a queda do faturamento.

Arrogância

A primeira metade do séc. XX foi marcada por uma Argentina com um dos maiores PIB’s do mundo e uma população letrada e *culta. Foi um país exemplar e modelo de evolução. A arrogância subiu à cabeça: ser o melhor passou a ser sinônimo de que seria sempre o melhor: amarga ilusão!

A empresa que acredita que por estar relativamente bem nunca perderá sua posição, corre o enorme de risco de se ver em amarga situação. Manter a dianteira requer evoluir constantemente – a si e a seus colaboradores; requer participar e incentivar o contínuo aperfeiçoamento e aprendizagem – sem exceção; em síntese, requer a humildade de aprender sempre!

Ausência de autoridade

Não se governa um país sem autoridade – e autoridade não são as armas. Autoridade governamental é a capacidade de se manter um país sob controle quando debaixo de situações gravemente adversas. Os Estados Unidos demonstraram esta condição em setembro passado e nós, Brasil, também o fizemos durante e no fim do governo do Collor e posteriormente com o plano Real. A Argentina fracassou totalmente neste quesito por causa da política populista – herdada do peronismo.

Não se administra uma empresa sem autoridade – e autoridade não são gritos e socos na mesa. Administrar uma empresa é fazer o que é preciso e necessário, sem atitudes de contorno ou de submissão a pressões de alguns funcionários, e sem cultuar a paciência e aceitação aos maus profissionais. A ausência de autoridade promove subversão da ordem e da disciplina interna, gera feudos de poder paralelo e, por conseqüência, a direção da empresa torna-se refém na sua própria casa. Organogramas bem definidos e cargos e funções descritos de forma correta, clara e precisa, contendo o grau de autoridade e de responsabilidade, auxiliam muito na preservação da ordem interna.

Corrupção

O grau de corrupção num país está diretamente relacionado com a baixa performance daquela nação; os países mais desenvolvidos do mundo são os menos corruptos, e os mais atrasados são também os mais corruptos. O funcionalismo público na Argentina estava há décadas acometido deste mal, propiciando vantagens a alguns em detrimento do todo. Esta é a cultura da esperteza, em se tirar vantagens para si, sem se preocupar com a ética – levando o país a uma situação de sangria das contas.

A corrupção dentro de uma organização pode ocorrer de forma explícita ou disfarçada. As explícitas são fáceis de se atacar tão logo sejam identificadas: vendas com descontos não autorizados, compras com preços elevados, almoxarifado entregando peças a mais etc. As disfarçadas são difíceis de serem identificadas e eliminadas: pressão psicológica pela chefia, funcionário ameaçando a integridade física ou moral de outrem, trocas de favor por interesses pessoais, auditores internos da qualidade vilipendiados etc. Atacar a corrupção requer esforço e perseverança contínuos, eliminando uma a uma as causas, sem exceção e sem deixar nada para trás, com ações pontuais e definitivas. Duro é saber que uma situação dessas um dia começou por culpa da própria administração, que ao ter tido conhecimento do primeiro caso deixou passar em branco.

Incompetência produtiva

Alguns analistas defendem a idéia que a causa-mortis da Argentina é a incompetência produtiva. Creio que esta incompetência, que de fato existe, não é causa, é efeito de tudo o que acima expusemos, agravada pela miopia de se defender fronteiras fechadas quando o mundo todo já caminhava para a globalização, perdendo desta forma a referência de preços e valores.

Uma organização não é improdutiva por si só, ela torna-se improdutiva pelo acúmulo de doenças. Cabe à direção enxergar que a ética, a qualidade dos produtos e serviços, a busca incessante da melhoria da produtividade e a capacitação contínua dos gerentes e da chefia é que tornam a empresa produtiva.

Preços não competitivos

Os itens acima tratados são o bastante para levar um país à deriva, impedindo seu crescimento e, portanto, empregos para todos. Como se não bastassem os itens acima, veio a paridade entre o peso e o dólar, causando uma supervalorização mercadológica, arrastando de vez a Argentina para o buraco. A paridade só teria dado certo se tivesse havido um crescimento produtivo e econômico. Atacou-se o efeito, e não a causa.

Uma empresa saudável tem preços competitivos quando: primeiro: possui uma estratégia voltada à redução de custos operacionais através de planos de ação para redução de perdas e desperdícios, melhoria da produtividade, eliminação de tempos ociosos, planejamento e capacitação profissional; segundo: tem uma estratégia de qualidade através de planos de ação de mensuração da qualidade e da satisfação do cliente, elaboração de um sistema da qualidade com foco no cliente (ISO 9000) e a busca por agregar valor aos produtos. Na verdade o preço quem de fato faz não é a empresa, é o mercado. A empresa gerencia, bem ou mal, os seus custos. A empresa garante a venda quando o preço do produto for menor que seu valor – e a venda é tão mais rápida quanto maior for esta diferença -, e a empresa garante sua sobrevivência quanto maior for a diferença entre o preço que o mercado paga e o custo real que ela tem do produto. Custo e valor são os parâmetros do sucesso.

Dívida

Dívida é a conseqüência final de tudo o que acima tratamos. Porém, esta condição da Argentina não interessa para um mundo globalizado, e assim ela sairá dessa situação, é só uma questão de tempo – se muito ou pouco, não se sabe, depende de quando e como farão a lição de casa. Um país não pode falir.

Sua empresa pode.

Revista Tecnologia e Vidro no. 13 – Dezembro/Janeiro 2002
Gazeta Mercantil, página A-2 de 28/Janeiro 2002
Revista Fundição (Abifa) – Ano V – no. 45 – Janeiro/Fevereiro 2002

 

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